Lucas do Rio Verde - Setembro 3, 2026

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PL anuncia “depuração” contra prefeitos e lideranças que abandonaram Wellington e aderiram a Pivetta

A debandada de prefeitos do PL para o palanque do governador Otaviano Pivetta (Republicanos) deixou de ser apenas um desconforto de campanha e passou a provocar uma reorganização interna na estrutura do partido em Mato Grosso

Por: Portal JVC / JB News

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(Autor da imagem: JB News)

Ananias Filho diz que processos disciplinares estão sendo preparados, admite que defenderia expulsão de dissidentes e anuncia troca de comandos municipais; presidente tenta minimizar efeito eleitoral da debandada, mas cobra “hombridade” de prefeitos eleitos com estrutura da sigla

A debandada de prefeitos do PL para o palanque do governador Otaviano Pivetta (Republicanos) deixou de ser apenas um desconforto de campanha e passou a provocar uma reorganização interna na estrutura do partido em Mato Grosso. Nesta quarta-feira (2), durante passagem pela Assembleia Legislativa, o presidente estadual da legenda, Ananias Filho, confirmou que o comando liberal prepara procedimentos disciplinares contra filiados que decidiram abandonar politicamente a candidatura de Wellington Fagundes ao Governo e trabalhar pela reeleição do atual governador.

Embora tenha procurado demonstrar tranquilidade e sustentado que as dissidências não enfraquecem o PL nem comprometem necessariamente o desempenho de Wellington nas urnas, Ananias endureceu o discurso ao tratar da conduta dos prefeitos que utilizaram a estrutura partidária para se eleger e, agora, escolheram outro candidato ao Palácio Paiaguás.

O incômodo da cúpula liberal está justamente no fato de que a rebelião não parte de quadros periféricos. O movimento alcançou administrações politicamente importantes e colocou o partido diante de uma situação pouco confortável em plena campanha: enquanto Wellington tenta consolidar o próprio projeto estadual, prefeitos eleitos pelo PL aparecem publicamente pedindo votos para seu principal adversário.

Entre os casos mencionados por Ananias estão os da prefeita de Várzea Grande, Flávia Moretti, e do prefeito de Rondonópolis, Cláudio Ferreira. Outros dirigentes e gestores ligados à legenda também já se movimentaram em direção ao governador, ampliando um fenômeno que começou de maneira localizada e passou a ganhar dimensão estadual.

Para Ananias, ninguém é obrigado a concordar integralmente com as decisões tomadas pelo partido. O problema, segundo ele, começa quando um filiado se beneficia da legenda, utiliza sua estrutura eleitoral e os recursos destinados à campanha e, depois, resolve trabalhar abertamente contra o projeto definido pela direção.

“Eu não acho ruim a pessoa se posicionar. Eu só acho ruim a pessoa não ter hombridade de chegar no partido e falar: ‘Olha, eu vou me afastar do partido, eu vou me desfiliar do partido e vou apoiar outro candidato’”, disparou.

A fala revela o tamanho da irritação existente nos bastidores. Ananias lembrou que os partidos administram recursos públicos destinados às campanhas e argumentou que quem recebeu suporte da sigla deveria, no mínimo, comunicar previamente uma eventual mudança de posição.

“Quem usa o partido pode até discordar do rumo que o partido está dando, mas ele que usou toda a estrutura do partido, recebeu recurso público, que é público, mas destinado por delegação aos partidos, deveria ter hombridade e falar: ‘Eu tive essa estrutura, tive esse apoiamento e agora acho que vou retribuir’. Mas cada um responde pelo seu gasto”, afirmou.

A reação não ficará restrita ao discurso.

Ananias confirmou que já encaminhou ao departamento jurídico do PL os casos considerados mais delicados. A direção prepara os atos que permitirão instaurar formalmente os procedimentos internos, assegurando aos envolvidos direito de defesa. O presidente calcula que cada processo poderá levar entre 30 e 60 dias até uma definição.

Questionado se os procedimentos poderão terminar em expulsão, evitou antecipar oficialmente o resultado, mas não deixou dúvidas sobre qual seria sua posição pessoal diante dos casos.

“Esse procedimento é para analisar a conduta. O relator faz um relatório. Eu, se fosse relator de algum caso, relatava pela expulsão”, declarou.

O recado praticamente antecipa o ambiente que os dissidentes encontrarão dentro da legenda.

Além dos processos, a reação já começou a atingir os diretórios municipais. Em Rondonópolis, onde Cláudio Ferreira perdeu o comando partidário depois de declarar apoio a Pivetta, Ananias afirmou que Rodrigo Azaeli deverá assumir a condução da legenda. Segundo ele, a mudança deverá ser inserida oficialmente no sistema assim que a documentação partidária estiver concluída.

Em Várzea Grande, cidade administrada por Flávia Moretti, o dirigente também anunciou mudança e disse que o advogado Farina deverá assumir o comando municipal do PL.

Em Campo Novo do Parecis, onde a direção também enfrentou divergências em torno da sucessão estadual, Ananias afirmou que está escolhendo um novo presidente para a legenda. Integrantes da antiga composição que permaneceram alinhados ao partido poderão retornar à executiva. O comando partidário de Sapezal, conforme revelou, também foi destituído.

É, na prática, uma intervenção política nos diretórios em que a direção estadual avalia que perdeu o controle sobre a orientação eleitoral.

Perguntado se o processo representaria uma “faxina” dentro do PL, Ananias rejeitou a expressão. Preferiu outra palavra, politicamente menos explosiva, mas igualmente reveladora.

“Eu não falo nem faxina. Eu falo que vai ter uma depuração.”

A escolha do termo expõe a disposição do comando estadual de reorganizar o partido depois da eleição e separar aqueles considerados efetivamente comprometidos com as decisões partidárias dos filiados que romperam com a candidatura de Wellington.

Ananias utilizou a própria trajetória para sustentar sua cobrança por fidelidade. Disse estar no PL desde o fim da década de 1980 e lembrou que, em diferentes momentos, precisou aceitar decisões das quais discordava.

Citou como exemplo uma aliança feita pelo partido em 2002 com um político de esquerda. Segundo ele, foi contrário à composição, tentou impedir a decisão internamente, mas, derrotado, respeitou a posição majoritária.

“Eu engoli seco e fui lá e apoiei, fiz o apoiamento porque eu sou partidário e eu não sou covarde e não sou infiel”, afirmou.

Apesar da contundência contra os prefeitos, Ananias tentou separar a crise partidária de seus possíveis efeitos eleitorais sobre Wellington Fagundes.

Na avaliação do dirigente, prefeitos não têm capacidade automática de transferir votos a quem apoiam. Ele argumentou que o eleitorado está cada vez mais independente das estruturas políticas tradicionais e que o apoio de uma liderança municipal não significa que sua base eleitoral seguirá a mesma orientação na urna.

“Não vai ter encabrestamento em lugar nenhum para que alguém seja votante somente porque a figura A, B ou C está dando apoio para candidato A ou B”, disse.

Ananias foi ainda mais longe ao afirmar que até práticas antigas de influência eleitoral perderam força. Segundo ele, mesmo quando existe vantagem material envolvida, o eleitor continua livre diante da urna.

“Às vezes muitos pegam dinheiro para votar. Eu acho que ele pode até pegar, mas o voto ele vota em quem ele quiser. Não adianta. Dinheiro não muda voto de ninguém, porque ele vota naquele candidato que simpatiza e que quer colocar no poder”, declarou.

É justamente nessa leitura que o presidente do PL sustenta sua tentativa de reduzir a dimensão eleitoral da debandada.

Para ele, o fato de prefeitos de cidades importantes terem escolhido Pivetta não significa necessariamente que Wellington perderá os votos desses municípios. O eleitor, argumenta, fará sua própria avaliação das candidaturas e das propostas apresentadas durante a campanha.

O problema para o PL, porém, ultrapassa a matemática individual do voto.

Nos bastidores, cada prefeito que abandona o palanque liberal fornece a Pivetta não apenas uma declaração pública de apoio, mas estrutura política, capilaridade municipal e uma narrativa extremamente útil à campanha: a de que o governador consegue avançar inclusive sobre a base partidária de seu principal adversário.

A movimentação ganhou contornos ainda mais delicados depois que Pivetta passou a abrir publicamente as portas do Republicanos aos prefeitos ameaçados de punição dentro do PL.

Forma-se, assim, uma disputa paralela à eleição pelo Governo. De um lado, o PL tenta preservar a autoridade sobre seus quadros e impedir que a candidatura de Wellington seja esvaziada por dentro. Do outro, Pivetta transforma cada nova adesão liberal em demonstração política de força e municipalismo.

Ananias rejeita a interpretação de que exista uma crise exclusiva do PL. Para ele, divisões e infidelidades atingem praticamente todas as coligações da atual eleição.

“Eu quero saber qual partido que não está dividido. Eu quero saber qual coligação que está unida. Não tem uma coordenação de campanha que não tenha preocupação com pessoas infiéis”, argumentou.

Mas, ao mesmo tempo em que relativiza o racha, o dirigente deixa claro que a tolerância interna chegou ao limite.

A mensagem lançada nesta quarta-feira tem dois destinatários. Para fora, Ananias tenta convencer o eleitorado de que a saída de prefeitos não altera a competitividade de Wellington Fagundes. Para dentro, avisa que quem cruzou a linha partidária poderá enfrentar processo, perder espaço nos diretórios e, no limite, ser expulso.

No discurso oficial, portanto, nada enfraquece o Partido Liberal. Nos bastidores, porém, o PL já começou sua “depuração”.

Jornalista Valdecir Chagas

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