O prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini (PL), afirmou que a Operação Heritage, deflagrada pela Polícia Federal na última quinta-feira (6), deve ser vista com naturalidade do ponto de vista investigativo, mas avaliou que o vazamento antecipado de informações sobre a ação comprometeu a credibilidade e a seriedade da operação. Segundo ele, a investigação é uma atribuição legítima da Polícia Federal, porém a divulgação prévia de detalhes sobre a data e a execução dos mandados levantou dúvidas sobre a condução do procedimento.
Ao comentar a operação que teve como alvos pessoas e empresas investigadas por suposto desvio de recursos relacionados ao acordo firmado entre o Governo de Mato Grosso e a empresa Oi, entre elas o secretário-chefe da Casa Civil, Mauro Carvalho, e que também cita o deputado federal e candidato a vice-governador Fábio Garcia (União Brasil), Abílio afirmou que não questiona o direito da Polícia Federal de investigar qualquer denúncia.
“O papel da Polícia Federal é investigar mesmo. Sempre que houver denúncia ou suspeita, ela deve apurar os fatos”, declarou.
O prefeito, entretanto, disse considerar preocupante o fato de que, dias antes da deflagração da operação, informações sobre a data e até sobre a forma como seriam cumpridos os mandados já circulavam nos bastidores políticos. Para ele, esse vazamento pode ter comprometido a imparcialidade do procedimento.
Abílio afirmou que, pelo que tomou conhecimento, trata-se de uma investigação relacionada a fatos ocorridos há cerca de dois anos, e ponderou que operações desse tipo, em período eleitoral, acabam gerando repercussão política inevitável.
“Quem saiu dizendo que a operação aconteceria em determinado dia e até como seria acabou prejudicando a própria investigação. Ninguém marca uma operação policial para todo mundo saber antes. Isso tira a seriedade do trabalho”, afirmou.
Questionado se acredita que adversários políticos possam ter atuado para transformar a investigação em um fato de grande impacto eleitoral, Abílio evitou fazer acusações diretas. Disse não possuir elementos para apontar responsáveis, mas voltou a destacar que a antecipação das informações levanta questionamentos.
“Não posso afirmar quem fez isso nem dizer que houve mandante. Não tenho conhecimento para fazer esse tipo de acusação. Apenas acho que o vazamento prejudicou muito a credibilidade da operação”, declarou.
Durante a entrevista, o prefeito comparou o episódio a operações realizadas contra o ex-presidente Jair Bolsonaro durante os períodos eleitorais. Segundo ele, em alguns casos houve grande repercussão política no momento das investigações, enquanto posteriormente processos acabaram sendo arquivados ou não produziram condenações.
Na avaliação de Abílio, esse tipo de situação acaba produzindo desgaste público antes mesmo da conclusão das investigações.
“O Bolsonaro passou por isso. Houve operações, grande repercussão, acusações durante a eleição e, depois, alguns processos foram arquivados. A repercussão permanece, independentemente do resultado final”, afirmou.
Sobre o fato de as medidas cautelares da Operação Heritage terem sido autorizadas pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, o prefeito também adotou cautela. Disse não conhecer o ministro a ponto de fazer qualquer julgamento e afirmou que não possui elementos para colocar em dúvida sua atuação.
“Eu não conheço o ministro Flávio Dino para fazer esse tipo de avaliação. Sei apenas que existe uma relação política conhecida entre ele e algumas lideranças de Mato Grosso, mas não posso dizer que isso tenha qualquer influência no caso”, pontuou.
Questionado se a operação poderia provocar mudanças na chapa governista, especialmente em relação ao candidato a vice-governador Fábio Garcia, Abílio preferiu não comentar. O prefeito afirmou que já tornou pública sua posição sobre a disputa estadual e que não pretende interferir nas decisões das candidaturas ao Governo e ao Senado.
“Não participei da escolha de vice, não participei dessas definições e também não vou opinar sobre substituição ou manutenção de candidatos. Essa é uma decisão que cabe exclusivamente às chapas”, concluiu.
A Operação Heritage foi deflagrada pela Polícia Federal para investigar suspeitas de crimes contra o sistema financeiro nacional, peculato, lavagem de dinheiro e uso de informação privilegiada relacionados ao acordo firmado entre o Estado de Mato Grosso e a empresa Oi S.A. A investigação apura a suspeita de desvio de mais de R$ 308 milhões. Foram cumpridos mandados de busca e apreensão em Mato Grosso, São Paulo, Rondônia e Ceará, além de medidas de bloqueio de bens, afastamento de sigilos bancário e fiscal e restrições cautelares determinadas pelo Supremo Tribunal Federal. Até o momento, os investigados negam irregularidades e afirmam que irão demonstrar suas inocências ao longo das investigações.