Empurradas por conflitos políticos e por crises humanitárias que levaram à miséria em seus países de origem, milhares de pessoas chegam a Mato Grosso sem rumo definido. Em Cuiabá, encontram abrigo no Centro Pastoral do Migrante, onde Mauro Verzeletti, sacerdote da igreja católica, coordena de forma voluntária o acolhimento de famílias que fogem da fome, da violência e da falta de perspectivas.
Logo na entrada do espaço, os sorrisos de quem acolhe quebram o peso da chegada. Funcionários caminham apressados entre malas, sacolas improvisadas e crianças agarradas às pernas dos pais. Alguns migrantes aguardam do lado de fora, sentados à sombra, com olhares cansados, mas esperançosos. O abrigo tem portas largas e paredes simples. Não há luxo, mas há aconchego e espaço. E, para quem acaba de chegar, isso basta.
“A nossa atenção não tem exclusividade, ela não olha cor, religião ou orientação sexual. Olhamos a pessoa, pois o ser humano é o centro da nossa ação. Todo ser humano tem seus direitos e o objetivo é garantir sua dignidade como tal”, declara o padre Mauro Verzeletti
Entre brasileiros e estrangeiros, mais de 34% dos moradores de Mato Grosso são migrantes, segundo o Censo Demográfico de 2022 do IBGE.
O Centro Pastoral atua em Mato Grosso desde 1980. Ao longo de mais de quatro décadas, o espaço se adaptou aos diferentes fluxos migratórios que chegaram ao estado: brasileiros do Nordeste e do Sul, trabalhadores resgatados de condições análogas à escravidão, haitianos após o terremoto de 2010 e, mais recentemente, famílias venezuelanas que fogem da crise econômica e política no país vizinho.
Mauro tem 65 anos e trabalha como voluntário há mais de 30 anos. Ele já atuou fora do Brasil, acolhendo imigrantes na fronteira México e Estados Unidos e, hoje, se dedica à Pastoral em tempo integral.
“O trabalho não para, é 24 horas por dia. Cada momento histórico traz um tipo de dor diferente. Mas quase sempre a chegada aqui [no abrigo] é marcada pela mesma coisa: vulnerabilidade e medo”, ressaltou Verzeletti em entrevista.
Enquanto a entrevista acontece, o espaço revela sua rotina. Crianças correm, conversas em espanhol ecoam pelos corredores, voluntários organizam documentos. Em um canto, uma equipe prepara as refeições. Em outro, uma caminhonete deixa o pátio levando uma família que foi encaminhada para outro estado, onde tem uma rede de apoio.
Nos corredores, os recém-chegados Edgar Carrera, de 20 anos, e Yulies Lopez, de 21, conversavam baixinho. Eles contaram à reportagem que atravessaram a fronteira entre Brasil e Venezuela com o pequeno Ahlan Garcia, de 4 anos, em busca de um futuro promissor para a família. No abrigo, ganharam roupas, alimentos e ajuda para organizar os documentos.
O próximo passo agora é realizar cursos profissionalizantes oferecidos na Pastoral e, posteriormente, encontrar um emprego na cidade.
Perto deles estavam Yilda Sandoval, de 30 anos, e Luís Pereira, de 33, que tentavam organizar a rotina de uma família grande. São cinco filhos — de 13, 10 e 9 anos, além dos gêmeos de 5 anos — todos venezuelanos. Enquanto os adultos conversavam, as crianças corriam pelo pátio, misturadas a outras de diferentes nacionalidades, como se a infância não reconhecesse fronteiras.
